Pular para o conteúdo
Dr. Fernandes PianaAgendar

Obesidade e testosterona baixa no homem: por que repor nem sempre é o primeiro passo

No homem com obesidade, a testosterona baixa costuma vir do excesso de gordura, e não do testículo. Por que a perda de peso costuma vir antes da reposição, principalmente no homem jovem.

Por Dr. Fernandes Piana, médico, CRM-PA 19917. Publicado em . Revisado em .

A sua testosterona pode estar baixa, sim. Mas, no homem com obesidade, a causa quase sempre não está no testículo. E isso muda o tratamento.

O que a obesidade faz com a testosterona

Pense no testículo como uma fábrica que produz quando chega o pedido do cérebro, o hormônio LH. Na obesidade, o problema costuma estar no pedido, que chega fraco, e não na fábrica. Esse quadro tem nome: hipogonadismo secundário associado à obesidade (Saboor Aftab et al., Clin Endocrinol, 2013).

Dois mecanismos se somam (Fui, Dupuis e Grossmann, Asian J Androl, 2014; Fernandez et al., Eur Endocrinol, 2019):

  • Aromatase: a gordura tem uma enzima que converte parte da testosterona em estradiol. Quanto mais tecido adiposo, maior essa conversão.
  • Freio no cérebro: insulina alta, inflamação e o próprio estrogênio reduzem o comando do cérebro para o testículo.

O estradiol, aliás, não é vilão: o homem também precisa dele para os ossos, a composição corporal e a função sexual (Finkelstein et al., N Engl J Med, 2013). O problema é o desequilíbrio.

Qual sintoma conta mais

No grande estudo europeu EMAS, com 3.369 homens, a libido baixa foi o sintoma mais ligado à testosterona baixa. Cansaço e falta de memória são comuns, mas têm muitas causas (Wu et al., N Engl J Med, 2010). Por isso o diagnóstico pede sintomas compatíveis e testosterona baixa confirmada em mais de um exame, colhido em jejum e pela manhã (Bhasin et al., J Clin Endocrinol Metab, 2018).

Perder peso costuma vir primeiro

Uma revisão com metanálise de 24 estudos mostrou que a perda de peso eleva a testosterona em homens com obesidade, tanto com dieta quanto com cirurgia bariátrica, e a subida é maior em quem perde mais peso (Corona et al., Eur J Endocrinol, 2013). Em muitos casos, tratar a obesidade já resolve boa parte do problema, sem reposição.

Remédios que bloqueiam a aromatase às vezes aparecem nessa conversa, mas uma revisão de 2019 não os recomenda, por falta de estudos consistentes (Fernandez et al., 2019). A base continua sendo a mudança de rotina, com acompanhamento.

O cuidado com a reposição no homem jovem

A testosterona que vem de fora freia o comando do cérebro para o testículo, e a produção própria cai (Bhasin et al., 2018). Ao parar, mesmo depois de emagrecer e treinar, essa produção pode demorar a voltar, e nem sempre volta ao que era (Rahnema et al., Fertil Steril, 2014). Para quem ainda quer ter filhos, isso pesa ainda mais.

Já no homem mais velho, quando o próprio testículo produz menos, a reposição pode ser indicada, depois de confirmar o diagnóstico e avaliar os riscos (Bhasin et al., 2018).

O que está bem

Na maioria dos homens com obesidade, a testosterona baixa é uma consequência que melhora com o tratamento da causa. Isso quer dizer que dá para recuperar energia e libido cuidando do peso, do sono e da rotina, com acompanhamento.

Prescreveram testosterona e você está acima do peso? Antes de repor, investigue a causa. Diagnóstico exige consulta individualizada.

Fontes

  • Bhasin S, et al. Testosterone therapy in men with hypogonadism: an Endocrine Society clinical practice guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(5):1715-44. doi:10.1210/jc.2018-00229
  • Corona G, et al. Body weight loss reverts obesity-associated hypogonadotropic hypogonadism: a systematic review and meta-analysis. Eur J Endocrinol. 2013;168(6):829-43. doi:10.1530/EJE-12-0955
  • Fui MN, Dupuis P, Grossmann M. Lowered testosterone in male obesity: mechanisms, morbidity and management. Asian J Androl. 2014;16(2):223-31.
  • Fernandez CJ, Chacko EC, Pappachan JM. Male obesity-related secondary hypogonadism: pathophysiology, clinical implications and management. Eur Endocrinol. 2019;15(2):83-90. doi:10.17925/EE.2019.15.2.83
  • Saboor Aftab SA, Kumar S, Barber TM. The role of obesity and type 2 diabetes mellitus in the development of male obesity-associated secondary hypogonadism. Clin Endocrinol (Oxf). 2013;78(3):330-7.
  • Wu FC, et al. Identification of late-onset hypogonadism in middle-aged and elderly men. N Engl J Med. 2010;363(2):123-35. doi:10.1056/NEJMoa0911101
  • Finkelstein JS, et al. Gonadal steroids and body composition, strength, and sexual function in men. N Engl J Med. 2013;369(11):1011-22. doi:10.1056/NEJMoa1206168
  • Rahnema CD, et al. Anabolic steroid-induced hypogonadism: diagnosis and treatment. Fertil Steril. 2014;101(5):1271-9.

Quer olhar o seu caso com calma?

Agendar minha avaliação

Leia também