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Terapia hormonal na menopausa aumenta o risco de câncer de mama?

O medo tem origem real, mas terapia hormonal não é uma coisa só. O tipo, a via, o tempo de uso e o momento de começar mudam o risco. O que os grandes estudos mostram.

Por Dr. Fernandes Piana, médico, CRM-PA 19917. Publicado em . Revisado em .

Muitas mulheres deixam de perguntar sobre terapia hormonal por medo de câncer de mama. O medo tem origem real. Mas a resposta não é sim nem não: depende de qual terapia, para quem e por quanto tempo.

De onde vem o medo

Em 2002, o estudo WHI (Women's Health Initiative) interrompeu antes do previsto o grupo de mulheres que usava estrogênio junto com progestágeno, porque os riscos, entre eles o de câncer de mama, superaram os benefícios naquele grupo (Rossouw et al., JAMA, 2002). A notícia correu o mundo, e por anos a terapia hormonal passou a ser vista como perigosa para todas.

Terapia hormonal não é uma coisa só

Existem diferenças importantes:

  • Estrogênio isolado: usado por mulheres que não têm útero.
  • Estrogênio com progestágeno: necessário para quem tem útero, para proteger o endométrio.
  • A via: comprimido, gel, adesivo ou creme vaginal.
  • O tempo de uso e a idade em que se começa.

Cada combinação tem um perfil de risco diferente.

O que os números mostram

Uma grande análise reunindo dados de estudos de todo o mundo estimou o excesso de casos de câncer de mama em mulheres que começam a terapia por volta dos 50 anos e usam por 5 anos (Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer, Lancet, 2019):

  • com estrogênio isolado: cerca de 1 caso a mais a cada 200 usuárias, ou 5 a cada 1.000;
  • com progestágeno associado: de 1 a cada 70 a 1 a cada 50 usuárias, ou de 14 a 20 a cada 1.000, conforme o esquema;
  • com estrogênio vaginal em dose baixa: sem excesso.

Os próprios autores ressaltam que essas são estimativas válidas se a associação for causal.

O seguimento de cerca de 20 anos do WHI trouxe outra nuance: em mulheres sem útero, o estrogênio isolado não aumentou o câncer de mama, e a incidência foi até menor. Já o esquema combinado aumentou a incidência (Chlebowski et al., JAMA, 2020).

Então, pode ou não pode?

A posição atual da sociedade norte-americana de menopausa é que, para mulheres com menos de 60 anos ou com menos de 10 anos de menopausa, sem contraindicação, os benefícios da terapia para os sintomas costumam superar os riscos, e a escolha do tipo, da dose e da via deve ser individual (NAMS, Menopause, 2022).

Isso inclui olhar a sua história e a da sua família, os seus sintomas, como eles atrapalham a vida, e reavaliar a decisão ao longo do tempo.

O que está bem

Calorão, insônia e secura têm tratamento, com e sem hormônio. Entender o seu risco real é o primeiro passo para escolher com tranquilidade, em vez de sofrer por medo de uma notícia de 2002.

Este conteúdo não diz se você deve ou não usar terapia hormonal. Isso se decide em consulta. Diagnóstico exige consulta individualizada.

Fontes

  • Rossouw JE, et al. Risks and benefits of estrogen plus progestin in healthy postmenopausal women: principal results from the Women's Health Initiative randomized controlled trial. JAMA. 2002;288(3):321-33. doi:10.1001/jama.288.3.321
  • Chlebowski RT, et al. Association of menopausal hormone therapy with breast cancer incidence and mortality during long-term follow-up of the Women's Health Initiative randomized clinical trials. JAMA. 2020;324(4):369-80. doi:10.1001/jama.2020.9482
  • Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer. Type and timing of menopausal hormone therapy and breast cancer risk: individual participant meta-analysis of the worldwide epidemiological evidence. Lancet. 2019;394(10204):1159-68. doi:10.1016/S0140-6736(19)31709-X31709-X)
  • The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2022;29(7):767-94. doi:10.1097/GME.0000000000002028

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